Eu tenho parte com casa. Sou feito gato, gosto de canto. Acho que casa é o lugar da gente no mundo. Admiro quem pode ficar em qualquer lugar e fazer dele sua casa. Um gigante na arte das (des)amarras. Eu sou enraizada até o último fio de cabelo.
Tenho na memória, vivinho como se fosse ontem, o cheiro da casa de Campo Grande de Vovó Lili. Nítido, nítido e forte. Acho que porque foi lá que entendi o que era família. Antes morávamos fora do país e toda a família era aquele núcleo central que é a família de todo dia.
Na casa de Vovó não, tinha prima, primo, tias e seus companheiros. Tinha árvores e frutas que se podia pisar e sujar o pé descalço. Tinha pé de carambola com seu gostinho azedo e a melequinha no meio. Tinha banco de concreto feito de praça e tinha a pintasilga que cantava de galo e tomava banho todo dia fazendo o maior barulho e sujeira.
Tinha as aulas de crochê com Vovó e tinha a galinha guisada de Nete. Sim, tinha queijo coalho – do que derretia. Tinha férias inteiras lá e passeios de mãos dadas com a minha velha até o mercado da Encruzilhada. Lembro demais daquela pele fina de dedo grosso segurando na minha mão branca e gordinha. Guiando pelas ruas da cidade, pelos caminhos.
Depois de uns anos venderam a casa de Vovó. Fui das netas que esbrevejou, que assim não pode, não deveria ser. Mas minha súplica de criança foi silenciada pela razão dos adultos que venderam a casa e compraram um apartamento pra minha velha. Com menos de um ano, Dona Lili levou uma queda. Daí pra frente, foi ladeira abaixo.
Sem seu cantinho, aquele de sempre, minha voinha não tinha mais a graça da pintasilga. Não cantava no seu terreiro e sua alegria e juízo foi esmaecendo como areia no vento. Ainda bem que a gente tem cabeça pra dizer pro vento que tem coisa que ele pode levar, tem coisa que não.
O lugar da casa está lá, mas ela sofreu um incêndio e depois foi toda reformada. Não dá nem pra reconhecer. É que casa, diferente de gente, depois de reformada, é uma casa nova pra se conhecer.
Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
Quinta-feira, 9 de Abril de 2009
Carinho
Ele é uma coisa que esquenta a alma. Pode ser beijo, gesto, toque, olhar, palavras. Pode ser silêncio, presença ou ausência.
Um jeitinho fácil de acarinhar nos nossos tempos é por email. Agorinha mesmo, tava abrindo o blog pra tentar postar alguma coisa, procurando apenas um dos milhares de assuntos que tão bulindo com meu juízo, e chega o email.
Simples assim, vê:
Amiga,
Desejo a você uma excelente Páscoa, que além de muitos ovos de chocolate, traga muita Saúde, Amor, Felicidade e Carinho ......
Feliz Páscoa!
Oxi, como assim? Eu conheço essa pessoa faz tão pouco tempo, só encontrei 2 vezes e falo no máximo uma vez por semana ao telefone pra pedir orçamento, autorizar o aluguel de equipamentos e confirmar a finalização pra emissão da fatura. É o que se pode chamar friamente do clássico fornecedor. Simpática, mas fornecedor. Até me indicou pra um trabalho (que nem pude fazer). Enfim, simpatizamos uma com a outra. Mas confesso que fiquei intrigada.
Será que é spam? Deve ser, né? Atendimento pro cliente e tal. Mas tem um curioso Amiga... Aí coloquei pra responder pra todos. E todos era só ela. E eu adorei. Feliz Páscoa.
Um jeitinho fácil de acarinhar nos nossos tempos é por email. Agorinha mesmo, tava abrindo o blog pra tentar postar alguma coisa, procurando apenas um dos milhares de assuntos que tão bulindo com meu juízo, e chega o email.
Simples assim, vê:
Amiga,
Desejo a você uma excelente Páscoa, que além de muitos ovos de chocolate, traga muita Saúde, Amor, Felicidade e Carinho ......
Feliz Páscoa!
Oxi, como assim? Eu conheço essa pessoa faz tão pouco tempo, só encontrei 2 vezes e falo no máximo uma vez por semana ao telefone pra pedir orçamento, autorizar o aluguel de equipamentos e confirmar a finalização pra emissão da fatura. É o que se pode chamar friamente do clássico fornecedor. Simpática, mas fornecedor. Até me indicou pra um trabalho (que nem pude fazer). Enfim, simpatizamos uma com a outra. Mas confesso que fiquei intrigada.
Será que é spam? Deve ser, né? Atendimento pro cliente e tal. Mas tem um curioso Amiga... Aí coloquei pra responder pra todos. E todos era só ela. E eu adorei. Feliz Páscoa.
Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009
Quando não se finda
Na semana anterior ao carnaval meu companheiro de trabalho, partiu. Vencido por um câncer fulminante, meu velho Teo se foi. Um gigante! Tive a sorte de conviver quase que diariamente com ele nos últimos 4 anos. Era minha “pareia”. Não tê-lo mais no contato diário dá uma dor de rachar o peito. Agora ter tido a oportunidade de viver tão intensamente com ele, me dá um orgulho maior ainda do que essa dor que uma hora, tenho certeza, vai desistir de latejar.
Ele é um cara incrível. Um cara do bem. Tomamos muitas juntas, rimos demais, criamos juntos e mais do que tudo isso, sempre tivemos fé nas pessoas e achamos as belezas nelas. Ele no enquadramento, na imagem e eu na palavra. Quase sempre a gente voltou com uma sensação boa que move essa nossa vontade de trabalhar.
Teo morou em Angola. Filmou a guerra e o processo de pacificação. Passou por caminhos difíceis, escapando de minas pra denunciar as condições daquele povo. Ensinou muita gente lá a se comunicar usando as lentes da câmera. Fez escola.
Ele tem lá aquele jeitinho de professor. Um pouco reservado, parece tímido, mas quando ele bota o bigode pra frente fazendo bico, abre o sorriso e o olho brilha você descobre que a reserva é puro charme.
Eu falo tudo dele no presente. Todas as lembranças estão guardadas no fundo falso da gaveta do coração que é pra ninguém levar. São minhas. São lindas. No carnaval a chuva chorou demais. Não tenho mais as imagens dele, mas a imagem dele está guardada para sempre em mim. Uma aluna desse professor que me ensinou a ver o mundo um pouco mais simples. Quem me ensinou a gostar de baobás e saber onde eles ficam, me ensinou caminhos de barracas pra tomar cana e me ensinou o respeito do silêncio.
Fica com Deus, meu velho. E pode ter certeza que, como os baobás, as pessoas vivem milhares de anos. Só morre quem a gente quer e como só eu tenho o caminho do fundo falso da minha gaveta, você não vai morrer nunca.
Ele é um cara incrível. Um cara do bem. Tomamos muitas juntas, rimos demais, criamos juntos e mais do que tudo isso, sempre tivemos fé nas pessoas e achamos as belezas nelas. Ele no enquadramento, na imagem e eu na palavra. Quase sempre a gente voltou com uma sensação boa que move essa nossa vontade de trabalhar.
Teo morou em Angola. Filmou a guerra e o processo de pacificação. Passou por caminhos difíceis, escapando de minas pra denunciar as condições daquele povo. Ensinou muita gente lá a se comunicar usando as lentes da câmera. Fez escola.
Ele tem lá aquele jeitinho de professor. Um pouco reservado, parece tímido, mas quando ele bota o bigode pra frente fazendo bico, abre o sorriso e o olho brilha você descobre que a reserva é puro charme.
Eu falo tudo dele no presente. Todas as lembranças estão guardadas no fundo falso da gaveta do coração que é pra ninguém levar. São minhas. São lindas. No carnaval a chuva chorou demais. Não tenho mais as imagens dele, mas a imagem dele está guardada para sempre em mim. Uma aluna desse professor que me ensinou a ver o mundo um pouco mais simples. Quem me ensinou a gostar de baobás e saber onde eles ficam, me ensinou caminhos de barracas pra tomar cana e me ensinou o respeito do silêncio.
Fica com Deus, meu velho. E pode ter certeza que, como os baobás, as pessoas vivem milhares de anos. Só morre quem a gente quer e como só eu tenho o caminho do fundo falso da minha gaveta, você não vai morrer nunca.
Sábado, 17 de Janeiro de 2009
Caminhada de obstáculos
O resto da caminhada foi pauleira. 70km de lascar. Muito sol na moleira, o agreste ficando mais rude. Não sei se pra contrastar com a natureza, ou por costume mesmo, mas o povo vai ficando mais doce, mais gentil. Inúmeras são as chamadas para água, há ainda quem ofereça suco, biscoito e terraço pra fugir um pouco do sol. Os mais abastados até um bode e festa para o ano que vem já prometeram. Sempre ficava feliz da receber aquela energia maravilhosa desse povo.

Os calos resolveram calar. Com seu silêncio, o juízo voltou a falar novamente e a caminhada segue como processo de meditação e de auto-conhecimento. O sol abrasador fazia os 30 e poucos km diários duplicarem de tamanho. Resolvi então fazer pequenas metas. O meu objetivo sempre era chegar ao próximo ponto de parada.
Foi assim que, de grão em grão, enchi a alma. Enchi de alegria com o povo do nosso país, com a nova família de peregrinos e com as músicas cantadas e dançadas como sempre. Enchi de esperança, pra saber esperar e acreditar na espera. Enchi de humildade porque aprendi que às vezes é preciso ter calma e saber seu limite. Enchi de paciência por aprender a respeitar o jeito dos outros. Enchi de fé.

Cheia de vida, chego com o desejo imenso de gerar outra. Cheia de vida, chego com o desejo imenso que as pessoas queridas que estão com o corpo doente fiquem bem.

Os calos resolveram calar. Com seu silêncio, o juízo voltou a falar novamente e a caminhada segue como processo de meditação e de auto-conhecimento. O sol abrasador fazia os 30 e poucos km diários duplicarem de tamanho. Resolvi então fazer pequenas metas. O meu objetivo sempre era chegar ao próximo ponto de parada.
Foi assim que, de grão em grão, enchi a alma. Enchi de alegria com o povo do nosso país, com a nova família de peregrinos e com as músicas cantadas e dançadas como sempre. Enchi de esperança, pra saber esperar e acreditar na espera. Enchi de humildade porque aprendi que às vezes é preciso ter calma e saber seu limite. Enchi de paciência por aprender a respeitar o jeito dos outros. Enchi de fé.

Cheia de vida, chego com o desejo imenso de gerar outra. Cheia de vida, chego com o desejo imenso que as pessoas queridas que estão com o corpo doente fiquem bem.
Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009
De pés na estrada
Troquei de o tênis por uma papete, a meia grossa por duas finas e a costura dos pés por esparadrapo. De cuias rearrumadas, reencontrei o grupo em Limoeiro. As meninas já estavam com o quarto parecendo um cortiço. Calcinhas, camisas, calças e meias (muitas meias) penduradas em um varal improvisado no quarto. Antes de dormir elas me colocaram a par das trelas do dia e só conseguimos dormir bem tarde. Adolescência peregrina.

Para surpresa geral do grupo, voltei. No meu juízo estava certo: vou andar o que aguentar. Aguentei justos 20km. Cometi o erro de colocar um compeed (tipo uma segunda pele que protege o calo) em um calo já costurado e o que era só um calo virou um calo de sangue. Enfim, aquilo tava me doendo que só. Aí peguei uma Toyota (melhor meio do transporte do Agreste) e fui bater no próximo ponto de encontro. Mesmo sem caminhar, Sr Aldo, o motorista, estava achando aquela caminhada o máximo. Fazia alguns dias que via a gente andando e disse logo que ele mesmo não conseguia andar nem 5km.

- Consegue sim Seu Aldo. A gente nem pensa, mas consegue.
- Oxi, tem jeito não, dá logo um suador.
Conversa vai, conversa vem, logo fico sabendo que Seu Aldo tem aquela Toyota, mas tem também caminhão, telelei, telelei
- Pronto dona é aqui.
- Obrigada Seu Aldo, quanto foi?
- Oxi Dona, posso cobrar não. Vocês tem coragem de mamar em onça, faz até medo cobrar.
- Oh Seu Algo, obrigada, obrigada mesmo.
Desci na barraca de Seu Zé. Expliquei o de sempre:
- Não, não é promessa. É uma caminhada. Saímos de Jaboatão e vamos até Taquaritinga do Norte. É. Isso. Vamos. Posso sentar aqui um pouquinho? Deitar nesse banco? Obrigada.

A barraca do Seu Zé é essa aí da foto. Tudo que tem são as bolachas, uns utensílios domésticos, cerveja, pinga e a água preta do capitalismo. E só tem normal, zero não tem não. E está quente, gelada acabou. Seu Zé, gosta muito de falar não. Ótimo, eu tava com muita dor, tirei o compeed e aí o pé sangrou. Tava p da vida, também não tava pra muita trela não. Será que agora vou ter que parar mesmo?
Fico lá na barraca esperando as meninas e depois de um tempo chega uma família que vai pra São Paulo. Beijos, abraços, desejos de boa sorte e lá vão eles de Toyota. Depois chega outro Zé.
- Quanto é?
- 47 reais
- Óia aqui. Bota outra.
Pronto. Foi só isso que eles disseram. O outro Zé pagou a Zé, o dono da barraca, o pindura, tomou outra bebida e ficou lá 30 minutos. Silêncio. Poderoso silêncio. As meninas chegaram esfoladas e o outro Zé para o Zé dono da barraca:
- Me empresta 5 reais.
Agora para Lenira:
- Toma moça.
- Não Sr, a gente não precisa não
-Mas tome, vocês vão precisar, tome.
- Sr, pode ficar, muito obrigada, muito obrigada mesmo.
Que cena! Ele dando o que não tinha pra gente. Que bom que ele ficou com os cinco contos, que pra ele ia fazer falta porque o que ele deu encheu a gente de esperança. O que ele deu, não se compra e nem se vende.

Para surpresa geral do grupo, voltei. No meu juízo estava certo: vou andar o que aguentar. Aguentei justos 20km. Cometi o erro de colocar um compeed (tipo uma segunda pele que protege o calo) em um calo já costurado e o que era só um calo virou um calo de sangue. Enfim, aquilo tava me doendo que só. Aí peguei uma Toyota (melhor meio do transporte do Agreste) e fui bater no próximo ponto de encontro. Mesmo sem caminhar, Sr Aldo, o motorista, estava achando aquela caminhada o máximo. Fazia alguns dias que via a gente andando e disse logo que ele mesmo não conseguia andar nem 5km.

- Consegue sim Seu Aldo. A gente nem pensa, mas consegue.
- Oxi, tem jeito não, dá logo um suador.
Conversa vai, conversa vem, logo fico sabendo que Seu Aldo tem aquela Toyota, mas tem também caminhão, telelei, telelei
- Pronto dona é aqui.
- Obrigada Seu Aldo, quanto foi?
- Oxi Dona, posso cobrar não. Vocês tem coragem de mamar em onça, faz até medo cobrar.
- Oh Seu Algo, obrigada, obrigada mesmo.
Desci na barraca de Seu Zé. Expliquei o de sempre:
- Não, não é promessa. É uma caminhada. Saímos de Jaboatão e vamos até Taquaritinga do Norte. É. Isso. Vamos. Posso sentar aqui um pouquinho? Deitar nesse banco? Obrigada.

A barraca do Seu Zé é essa aí da foto. Tudo que tem são as bolachas, uns utensílios domésticos, cerveja, pinga e a água preta do capitalismo. E só tem normal, zero não tem não. E está quente, gelada acabou. Seu Zé, gosta muito de falar não. Ótimo, eu tava com muita dor, tirei o compeed e aí o pé sangrou. Tava p da vida, também não tava pra muita trela não. Será que agora vou ter que parar mesmo?
Fico lá na barraca esperando as meninas e depois de um tempo chega uma família que vai pra São Paulo. Beijos, abraços, desejos de boa sorte e lá vão eles de Toyota. Depois chega outro Zé.
- Quanto é?
- 47 reais
- Óia aqui. Bota outra.
Pronto. Foi só isso que eles disseram. O outro Zé pagou a Zé, o dono da barraca, o pindura, tomou outra bebida e ficou lá 30 minutos. Silêncio. Poderoso silêncio. As meninas chegaram esfoladas e o outro Zé para o Zé dono da barraca:
- Me empresta 5 reais.
Agora para Lenira:
- Toma moça.
- Não Sr, a gente não precisa não
-Mas tome, vocês vão precisar, tome.
- Sr, pode ficar, muito obrigada, muito obrigada mesmo.
Que cena! Ele dando o que não tinha pra gente. Que bom que ele ficou com os cinco contos, que pra ele ia fazer falta porque o que ele deu encheu a gente de esperança. O que ele deu, não se compra e nem se vende.
Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009
Pausa e Globo

É, parei. Ontem andei 5h30 com dor. A sensação de andar com as bolhas é de pisar em estilhaços de vidro quente. Aguentei péssimos 20 km e toquei. Pensei, não estou pagando promessa, isso aqui é pra ser prazer. Podia até ser com um pouco de dor, mas com tanto assim, não dá não... Resultado: voltei pra dormir em casa, cuidar dos pés e vou me organizar pra voltar hoje ou amanhã. É só uma pausa, não é game over não!

A caminhada de ontem foi de Tiúma até Carpina, passando por São Severino dos Ramos e Paudalho. Aí a estrada é mais urbanizada e descobrimos que todo mundo viu a matéria do NETV. O povo saía das suas casas pra desejar sorte e fé e pra perguntar se a gente precisava de alguma coisa ( e eu cá comigo, de uns pés bem calejados feito o seu). Lenira, mãe do meu amigo Camarão recebeu até uma foto de uma criança para ir acompanhando durante o percurso e deixar lá em Santo Amaro. Ela disse que demorou pra entender porque a senhora tava dando a ela uma foto, mas quando ela disse:
- É porque ele tá doentinho...a senhora pode levar pra fazer a reza?
Lindo isso né? Caminhos de fé.

Na minha caminhada de ontem só martelava duas palavras na minha cabeça: limite e determinação. No meu juízo, pensei que limite é uma linha que a gente não deveria chegar. Tem que ter juízo para parar antes. Determinação é um combustível que faz nosso juízo chegar onde a gente quer. Querer é bom. Querer coisa boa é melhor ainda. Não precisa querer pra estoporar o limite. Querer é bom quando é dentro do limite de cada um.
Em 2009 quero novamente um monte de coisas. Viva! Sonho com coisas que vou ter que ter determinação, vou precisar me reinventar. Vou tentar fazer tudo isso no meu limite.
Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009
Esporte para o espírito

Cá estou novamente em um novo caminho. Esse não é chique, não é nas zooropa. É aqui mesmo, se chama de Santo Amaro porque sai da Igreja de Santo Amaro de Jaboatão e vai até a Igreja do mesmo Santo em Taquaritinga do Norte. São 160km em 6 dias. Tudo beleza, se não fosse o calor e a beira de estrada. Esqueça a delícia do Caminho de Santiago de Compostela. Aqui é Santo Amaro de Mortadela!!
Durante o caminho resolvi prestar atenção nos caminhantes diários da região. Aqueles que andam de lá pra cá normalmente. O primeiro que atravessou o meu caminho vinha com uma bicicleta cheia de cajus.
-Moça, que mal lhe pergunte, porque vcs estão vindo tudo de pés? Tão indo pra onde?
- Oi Amigo, é que a gente gosta de caminhar.
- É que a senhora mora em Ricife e só anda de carro e oinbus né? Aí agora vai de pés... Muito bem, tome um cajuzinho pra senhora.
Caju delícia de relembrar os tempos de criança e a certeza de concordar com ele que já sacou tudo. Cruzamos também com seu Tonho que trabalha com palha e ia muito bem pela estrada com uma jaca super equilibrada na cabeça e as mãos cheias de palha.
- Posso tirar uma foto?
- Pode sim senhora
- O senhora mora aqui perto?
- Moro em São Lourenço, graças a Deus.
- E o senhora trabalha com Jaca?
- Não, com palha mesmo!

Que idiota que eu sou. Se ele trabalhasse com jaca não ia só com uma na cabeça, né? Ia era com um fardo, como era a quantidade de palha na mão dele. Uns quilômetros adiante: uma casinha simples cheia de cesta, baús e mais um monte de artesanato em palha. Era linda a casa. Eita povo lindo. De uma simplicidade e uma paz incrível.
Bem, muita gente parou na estrada perguntando se era promessa. Pq danado umas 30 pessoas iam andando com uma bandeira branca e um cajado na beira da estrada? BEm, tem gente que é promessa mesmo, tem gente que faz só para andar. Ouvi hoje de um caminhante de outras terras que é um exercício para o corpo e para a alma. Que a gente faz pra ficar mais leve.
É isso mesmo. A gente anda pra ficar mais leve e na alma a gente acaba é se encontrando com a gente mesmo e sabe do quê mais? Muito prazer, Carolina!
Mãe tá tudo bem, fora 3 calos gigantes... Já estou com os pés costurados em 4 pontos. Tá ardendo que só!!! Hoje foram só 24km, amanhã serão 28. Espero que eles aguentem chegar aos 160km!
Vou dormir no chão do Sesc de Tiúma. Ufa tem ventilador de teto e o banho é bom!!! Amanhã sairemos às 4h da matina. Nego, vou rezar por voinha em São Severino dos Ramos.
Assinar:
Postagens (Atom)